Reflexão da Semana

A paixão da sua vida
( Marina Colasanti)
Amava a morte. Mas não era correspondido.
Tomou veneno. Atirou-se de pontes. Aspirou gás. Sempre ela o rejeitava, recusando-lhe o abraço.
Quando finalmente desistiu da paixão entregando-se à vida, a morte, enciumada, estourou-lhe o coração.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Peras

"A rua estava deserta. O cheiro de dejetos humanos era inconfundível. A luz do poste, mais a frente, piscava paulatinamente, deixando o ambiente com uma aparência ainda mais assustadora.
Ela apressou o passo: alguém estava atrás dela. Segurou forte sua bolsa e começou a correr. A pessoa, fosse quem fosse, era rápida. Dehíse sabia que aquele ambiente era perigoso, mas não tinha outra escolha.
Um puxão no seu longo cabelo a fez gritar de dor e parar de correr. Finalmente a pessoa conseguiu alcançar-lhe. O homem segurou-a por trás gemendo doces e excitadas palavras:
- Você tá fudida, dondoca. Vai ter que pagar para poder sair daqui, piranha.
Apertou-lhe os seios.
- O meu dinheiro está dentro da bolsa. Pegue e me solte.
- Até parece que é isso que eu quero dizer com pagar, cadela. – Jogou-a no chão e começou a baixar sua bermuda. – Tá vendo ele? Vai ter que mamar todinho.
Dehíse colocou o pênis na boca. O homem começou a delirar.
- Vai, vadia, lambe. Isso... Assim... ah... AH... AAAAAAH
Com um rápido movimento, Dehíse guardou o canivete. Cuspiu o membro, enquanto o homem urrava de dor. Ele desmaiou.
Começou a voltar a si. Abriu os olhos. “Nunca mais eu uso cocaína... Aquela tava estragada, certeza.” Tentou mexer os braços, mas estes estavam totalmente imobilizados. A lembrança do ocorrido voltou, ainda que a dor não. Um curativo havia sido colocado onde deveria existir um pênis:
- MEU PAAAAAU, VOCÊ ARRANCOU MEU PAU. EU VOU TE MATAR.
Dehíse riu. Histericamente.
- Homens... sempre tão previsíveis. “Eu vou matar”, seguido de “por favor não, eu serei bonzinho” até “você vai morrer, vão te pegar”. – Aproximou-
se da maca. Ajustando as luvas, começou a desvelar um embrulho em cima da bancada.
- Mas eu não sou assim, moça, eu juro. Eu só precisava de dinheiro... eu tenho família...
- Eu sei. E bate em sua mulher, né? E estupra sua filha? – Ele ficou ainda mais pálido. – Eu venho lhe acompanhando, ô xará... E não é de agora. Desde que saiu da prisão. Eu não sou a primeira mulher que você humilha.
Seus olhos recaram sobre o bisturi.
- Mas com certeza serei a última. – Posicionou o objeto no ventre inchado - eu tenho que ter muito cuidado com esses corte... – falou pensativa - Ninguém vai gostar se você morrer por perda de sangue.
- Por favor, eu juro que não s...
- Eu falei... sempre desse jeito – revirou os olhos. - Malditos homens, vocês conseguem deixar qualquer coisa menos poética.
Com a mão firme, começou a fazer a incisão. Os gritos no quarto eram brancos, apáticos, sem vida. Sem esperança.
Cortou. Só o suficiente para retirar um filete de carne e gordura. O sangue escorria. Reposicionou o bisturi do tendão do pé direito. Abriu com um movimento preciso. Com os dedos, começou a puxar e abrir o local. Explorou com o dedo.
Ele nunca havia sentido tanto medo na vida. A dor era excruciante. Perdeu os sentidos. Acordou quando sentiu que algo estava incomodando o seu anus: Dehíse acaba de inserir uma pera anal. Ela começou a enrroscar o parafuso e a pera começou a abrir. O metal dilacerou o anus e o reto.
O corpo foi encontrado no mesmo lugar dos outros: ao lado da delegacia. Nenhum fio de cabelo de Dehíse fora encontrado. A polícia ficava dividida entre a consternação de não prender aquele serial que matava apenas estupradores que de alguma forma conseguiam escapar deles... E a gratidão. O número de estupros vinha caindo consideravelmente desde aquele mês.
Dehíse continuava a fazer terapia. Seu psicólogo disse que o trauma de ser estuprada tinha sido substituído por algo maior... Ele ainda não conseguira identificar o que. Mas estava fazendo tão bem, que ele queria estudar para poder melhorar o tratamento das outras pacientes que haviam sido estupradas.
Dehíse permanecia com as cicatrizes em seu corpo. Mas as da alma tinham sido exterminadas. Para sempre."

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Algemas

Eles eram melhores amigos. Sempre diziam que um homem e uma mulher nunca poderiam ser amigos sem que houvesse pelo menos uma tentativa de cunho amoroso... ou sexual. Mas não entre eles dois. Por mais que insistissem, nada rolava.
            “Ele deve ser gay!” diziam as amigas dela. Mas, todas as namoradas que ele tivera eram modelos... Ou muito ricas. “Ela deve ser frígida!” diziam os amigos dele. Mas, ela sempre namorara negros altos e fortes, que se gabavam de ter uma namorada que queria mais de cinco por noite. Não. O que eles tinham era uma amizade forte, eterna.
O atual namorado a pediu em casamento e ela aceitou. Mudou-se de cidade com ele, ficando distante de seu amado amigo. Foi uma verdadeira tortura, principalmente para ela. Apanhou muito da vida quando estava distante. Da vida e de seu marido. Voltou para sua cidade com lágrimas e um olho roxo.
Foi a vez dele se casar. Ela era modelo internacional e eles se mudaram para a Europa. Foi uma tortura, principalmente para ele. Foi deportado com sua ex-esposa que traficava cocaína nos desfiles... Voltou para casa com lágrimas e o nariz sangrando.
Quando chegou à cidade, ela foi busca-lo no aeroporto. Abraçaram-se, choraram juntos. “eu te amo”, ele disse. “Eu também...”, ela respondeu. Eles se casaram: ele com uma policial francesa, ela com uma advogada holandesa. Ainda hoje se encontram, e até fazem troca de casais.
Ela adora algemas!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Encontro literário ou "Literatura: Alimento da Alma!"

Esse domingo passado, dia 29/05, alguns amigos e eu fomos ao Parque das Mangueiras para discutir literatura. Vocês não tem IDEIA de como foi F-O-D-A! Aprendi muuuuuito com o pessoal que foi. Sabe, esse encontro - que nada tem a ver com alguma iniciativa do curso de Letras - foi MUITO mais interessantes do que esse monte de encontros de Mulher e Poesia, Semana de Letras, etc. Lá nós sentamos como amigos e discutimos com propriedade várias coisas relacionadas a literatura... E nos escutamos, e acrescentamos coisas às falas dos colegas, sugerimos obras literárias, etc.
Sem dúvida, a sensação que senti depois de falar tanta coisa boa foi a de que a literatura nunca me pareceu tanto com "o alimento da alma", que tantos falam por aí! Finalmente me senti REALMENTE uma aluna de Letras!!

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terça-feira, 31 de maio de 2011

O objeto de seu desejo...

            Ele era apaixonado por outro de mesmo gênero. Isso era um problema. Muitos, se soubessem, diriam que aquilo era um disparate, algo totalmente condenável e desprezível e, por isso, mantinha segredo de seus sentimentos para todos. Inclusive seu amado. Isso não é vida para ninguém. Mas assim vivia ele. Sozinho.
            Todos que passavam por ele eram manipuladores, achavam que eram dono dele, machucando-o, tratando sem cuidados seu corpo, seu meio de viver. Era comprado, usado e vendido novamente. Pessoas de várias estirpes lhe pisavam e ele deixava. Como sempre.
            Sua vida era sem sentido antes dele reparar naquele gigante. A princípio tentou ignorar, mas era praticamente impossível não reparar nele: alto, magro e imponente. Mais bonito que ele todo eram seus olhos que emitiam uma luz que deixava todos encantados com a sua beleza.
            Amava calado. Sofria calado. E seu corpo foi de muitos e muitas outras antes dele decidir que deveria ser dono de si e entregar-se a paixão. Decidiu declarar-se ao de sua vida, entregando-se de corpo e alma “Próxima vez que o vir, irei a seu encontro. Prefiro morrer a ficar longe dele!”.
            E assim foi. João acordou, penteou seus poucos cabelos e passou uma colonia barata. Estava muito ansioso, seria a oportunidade de sua vida. Finalmente conseguiria o que tanto queria. Olhou para o relógio, estava atrasado! Entrou correndo em seu carro preto e saiu cantando pneu.
            O carro estava estranho. Estava pendendo para um dos lados, mas isso não era o mais esquisito, pois o veículo, mesmo tendo sido comprado a pouco, já tinha sido de outras pessoas. Nem todo mundo cuida de um carro, principalmente um velho como aquele. O estranho era o barulho do motor. Parecia que algo tinha se soltado, fazendo um barulho frequente.
            De repente, algo aconteceu: parecia que o tempo tinha parado. Alí, estava ele. Não pensou duas vezes, ainda mais rapidamente, ele correu para seu objeto de desejo. O desepero de João era evidente: O carro estava acelerado e indo em direção a um poste! Perdeu o controle, colidiu com um grande estardalhaço.
            O pobre carro ficou em pedaços: O amor não era recíproco! Grossas lágrimas negras escorriam de motor, mas ele estava em paz, finalmente. Pela primeira vez em sua existencia ele teve certeza de que não viveu em vão... Ele conseguiu marcar a vida de alguém.
            O poste caiu, para desespero dos que assistiam a cena. Aquele idiota que sempre olhava para ele decidiu acertá-lo, do nada... Ele nunca gostou de carros, o negócio dele era mais animal: cachorros! Ou algo mais diferentes, como lambretas... Mas, um carro? E preto ainda por cima! Ainda bem que aquilo tinha acabado de uma vez. Em um momento de prazer, ele viu um cachorrinho do jeito que ele gostava levantando a perninha em cima dele, enquanto uma multidão corria para tentar salvar o jovem escritor que estava em estado deplorável dentro do carro...
            Quem se importa? Pelo menos o líquido era quentindo!

sábado, 30 de abril de 2011

Post de aniversário \o/

Olá gurizaaaaaaaaaaada! Ontem, dia 29 de abril de 2011, eu fiz infelizmente fiz 24 anos \o/. Pois é, tirando a festinha surpresa que meus alunos do sexto ano fizeram para mim, a comemoração ficou meio que em branco. Mas isso não significa nadica, por que ainda assim  coisas excelentes aconteceram:

  1. Uma feesta feita por alunos! Gente, foi muito booooooom
  2. Rolé no Midway com meus alunos do oitavo e nono anos, além de encontrar meu amor apaixonante (ALLISON) que me deu vários beijos \o/
  3. Ganhei uma batata recheada do meu queridíiiiiiiissimo Jon, além de sair com meus amigões: Jon, Nata e Nelsito (marcio não quis pode ir)...
  4. "Ganhei" uma bolsa de pesquisa na UnP para trabalhar com o incríiiiiiiiivel laryssa babona professor Sílvio, que eu adooooro, além de trabalhar na melhor área do mundo: ADC!
  5. Hoje eu ganhei um bolo de aniversário... tá gostoso!
  6. Eu nem sei mais o que colocar aqui
  7. eu estou com sono... muito soooono
  8. eu estou cansaaaaaaaada, muito cansaaaaaaada.... cambão mode on isso significa RELAXE! cambão mode off
  9. Obrigaaaaaaaaada a todos que se lembraram que eu existo, valeu de verdade!

FUUUUUUI
PS: Acho que essa semana tem post novo!
UHUUUUUUUUUUUUU

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A alma do negócio

               O orgulho da família era o pequeno restaurante na esquina da Rua 7 com a Avenida 13. Sem dúvida, era o melhor restaurante familiar da cidade, com preços razoáveis e ambiente climatizado, deixando o lugar aconchegante e caseiro.
                A família Olivetti morava na casa que era grande o suficiente para ser os dois: casa de família e Restaurante. No melhor estilo vitoriano, a casa era uma das poucas que ainda mantinham o porão e o sotão.
                Dona Deise era a cozinheira. Herdara a casa do pai quando este desapareceu subitamente, logo ao casamento dela com o Senhor Olivetti. Ela era alma do negócio e depositava todas as suas forças para manter o lugar. Já o senhor Olivetti era um homem rude, mas que ainda assim cedia às manhas da mulher. Tratava seus filhos com uma severidade extrema. Era um negócio de família e não eram permitidos outros empregados.
                Eram três filhos. A mais nova era a pequena Dorothy, que só sabia babar e tomar mamadeira, dentre outras coisas nojentas. Os outros dois eram gêmeos: Diego e Lucas. Eram identicos unicamente na aparencia. Eram como Rômulo e Remo; Esaú e Jacó; João e Maria. Certo, essa última não tem muito a ver com a história, mas deixa para lá. O fato é que, enquanto lucas era arteiro, Diego era delicado. Enquanto um era ganancioso, o outro era generoso. Lucas era galinha e Diego era... Hum... Virgem (?).
                Certo dia, Dona Deise pediu para que eles fossem ao lado da cidade comprar condimentos para o prato do dia: Ensopado.
                Depois de tudo comprado, cada um tomou um rumo diferente. Lucas foi para a rua onde ficavam as garotas que ele dizia que tinham ‘uma vida divertido’. Putas, por assim dizer... Diego foi para a livraria encontrar a paixão de sua vida, seu primeiro amor. Quero dizer, sua primeira paixão...
                Druzianna era linda. Pele branca, seios fartos e torneados perceptíveis pelo uniforme da livraria. Seus olhos verdes eram doces e aparentemente inocentes, mas com uma calor contagiante que se instigava cada vez que olhava para Diego. Eles se conheciam a pouco mais de um ano, mas nunca haviam saído, mesmo a paixão já sendo visível. Ele havia a convidado para sair, finalmente, e iriam depois do trabalho dela. Era para isso que trazia um vestido vermelho, com alças delicadas.
                – Então... Como foi seu dia hoje?
                – Be... Bem – “ótima hora para gaguejar, Diego!” Pensou ele e respirando fundo – Você larga de que horas mesmo?
                – Hum – Druzianna olhou para o relógio – daqui a pouco mais de uma hora... você vai esperar?
                Diego pensou, tinha de termina de se arrumar, queria que a noite fosse única. E seria. Pelo menos para ela.
                – Eu vou levar esses coisas para minha mãe e volto. Onde quer jantar?
                – Ué, leve-me ao seu restaurante...
                – Certo.  Até mais...
                Saiu da loja cantarolando baixinho. Encontrou Lucas saindo de um apartamento. Logo atrás dele vinham três mulheres e um anão.
                – Se não quer a verdade, não pergunte...
                – Ok, mas um anão?! – Disse Diego inconformado.
                – E a guria? Vai comer ela quando?
                Diego suspirou
                – Aff, você só pensa nisto?
                – Hum... Deixa um pouco para mim? Afinal, somos uma família...
***
                Druzianna saiu do trabalho as sete e Diego já a esperava. Passearam um pouco pela cidade e, lá pelas dez, foram jantar.
                Dona Deise estava encantada com a garota. “Ela é linda” comentou com o marido. Seu Olivetti apenas respondeu “isso prova que nosso varão não é gay! E isso vai contra todas as estatísticas”.
                Àquela  hora havia poucas pessoas no ambiente e à meia noite o restaurante fechou. A família deixou os dois a sós e foram dormir.
                Beijaram-se. A coisa começou a esquentar.
                – Onde é seu quarto? – disse Druzianna ofegante.
                – Descendo aquelas escadas.
                O quarto era quente, úmido e mal iluminado, mas tinha uma cama imensa. Druzianna arrancou a roupa de Diego que quando se deu conta estava deitado na cama.
                – É agora que é a coisa esquenta!
                Dormiram juntos, abraçados.
                Às quatro horas da manhã, o relógio biológico de Diego o acordou. Druzianna já não estava lá e ele pensou que ela estava no banheiro. Achou que deveria subir e ajudar sua mãe a amaciar a carne que seria cozida aquele dia. Chegou ao sotão e qual não foi sua surpresa ao ver Lucas nu da cintura para baixo. E o pior: Druzianna estava acorrentada e gemendo desesperadamente.
                Diego entrou no quarto e ficou ainda mais estarrecido: sua família inteira estava lá assistindo àquele bizarro espetáculo.
                – Vem, vem Diego... Senta aqui. Ela estava começando a implorar agora... – disse a mãe.
                – É, ela achava que Lucas era você... Além de mulher é burra, sem ofensas, Deise.
                – Como é que é? Ela... Ela... Mãe... Eu a amo!
                – Ama? Faça-me o favor, Diego... Ela é uma qualquer.
                – Mas eu a AMO!
                – Ai Diego, que coisa emo, ama do jeito que amava Paolo? – Perguntou Lucas, limpando o sangue de suas pernas.
                Diego acabou meio que viajando com a lembrança de Paolo... Ah... Paolo e sua negra “sensualidade”. “Que negro era Paolo... Me possuiu como nunca ninguén fez”
                – Viu só? Sai daí, a Dorothy tá querendo aprender isso... Se sabe ela tá naquela fase de fazer tudo o que vê...
                Diego voltou a si, neste momento.
                Pegou um fio que a mãe usava para fazer linguiça e partiu para cima de Lucas.
                – Seu imprestável... Eu a am...
                Parou. Uma dor aguda surgiu na sua perna esquerda... ele caiu no chão. Do outro lado da sala, seu pai recarregava a 12.
                – Da pra ficar quieto e deixar seu irmão terminar? – virou pra Lucas – Amarra ele também... vamo ver pelo menos antes de morrer ele honra sua família... vai conhecer a vara dos Olivetti.
                Druzianna gritou. Foi a última coisa que fez.
***
                Às seis da tarde o restaurante já estavam lotado. O prato do dia era uma espécie de feijoada. Dona Deise atendia uma senhora que insistia em saber o segreda da comida.
                – Ok... Mas você não pode dizer nem o que você coloca nesta linguiça? É tão saborosa.. Com um sabor leve...
                Deise sorriu.
                – Acho que este se eu contar, você não vai acreditar.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Coisa de homem!

                “O seu problema meu caro – dizia-me exaustivamente – é que seu pensamento sempre foi muito bagunçado!”. E, de fato, sempre o foi. Mas isso nunca foi uma coisa que realmente importasse para mim. As pessoas dizem coisas sobre os outros, sem os conhecer de verdade. Claro ela me conhecia, pelo menos um pouco, mas isso é um detalhe.
                Um certo dia, decidi mostrar que era o cérebro dela que não funcionava corretamente. Chamei-a para minha casa sobre o pretexto de lhe mostrar meus atributos culinários. Claro, ela prontamente aceitou pensando que eu queria mera e simplesmente comê-la.
                Tudo organizei para que ela se sentisse bem. Quando ela chegou, viu que a mesa estava ornada com garfos, facas, taças de vinho... E uma mini serra-elétrica. Assustou-se. Tentou correr. Não conseguiu. Agarrei-a e a amarrei na cadeira.
                “Eu tenho o pensamento bagunçado?” disse eu. “Deixe-me lhe mostrar a minha última tomografia!”. Peguei um envelope que estava na bancada da cozinha e mostrei para ela. Chorava como uma criança. Uma criança que fala de coisas que não sabe. Uma criança que merecia ser punida. “Viu? Está tudo perfeito! Se meu cérebro está bem, meus pensamentos também o estão!” falei. Ela não respondeu nada... Acho que a mordaça estavam cumprindo bem seu papel. “Agora, vamos ver como está o seu cérebro? Você fica me julgando, mas fala sem saber como o seu anda... Se é que possui um!”
                Liguei minha mini-serra. Tinha sido um presente de mim, para mim mesmo. E eu tinha adorado... Bons tempos aqueles... Bom, peguei a mini-serra e liguei. Antes de começar, fiz mais um ajuste: eu necessitava escutar o que ela tinha a dizer. Desliguei meu brinquedo e tirei a mordaça que a impossibilitava de, entre outras coisas, me xingar.
                De muitas coisas me chamou, entre soluços e lágrimas. Quando finalmente cansou, pensando, talvez, que me convenceria de que era desnecessário fazer aquela intervenção com ela, entregou-se ao silêncio. Religuei a serra.
                Me aproximei lentamente. Gritos ecoavam em minha sala de jantar. Primeiramente, encostei de leve a serra em seu crânio. O barulho foi reconfortante. Pedacinhos de couro cabeludo voaram em meu rosto. Saboreei com prazer. Suas lamúrias fazia que tudo ficasse ainda mais gostoso. Encostei no crânio, propriamente dito. Ela gritou ainda mais. O barulho da serra aumentou, muito mais sólido.
                “Acho que essa serra não vai resolver...” disse eu, muito triste. “Faremos assim, eu compro uma de melhor qualidade e termino o serviço, certo?”. Ela tinha perdido muito sangue, então eu suturei suas lacerações, cuidando para estancar o sangramento. Aproveitei e lhe dei um analgésico para a dor que devia estar sentido, coitada.
               Quando ela perdeu a consciência e a prendi à minha cama. Estaria muito confortável ali... Tão aconchegada... Que me senti tentado.  Quando ela acordou, eu já estava terminando. Ela gemia. Chorava. Implorava por misericórdia. Me excitei novamente.
                Faz três semanas que ela está comigo. Nesse momento, estou na loja de construção, comprando a melhor mini-serra que eles possuem. Sei que minha noiva me aguarda ansiosamente. Ela me ama tanto... Ainda que não possa soltá-la sem que ela queira sair para passear, sei que me ama!
                De hoje não passa... Mostrar-lhe-ei o seu cérebro e, se realmente ela tiver um, o jogarei no lixo. Quem precisa de uma mulher que pensa? Tudo seria melhor se ela soubesse que não pode pensar... Isso é  coisa de homem! Eu me responsabilizo... Por nós dois."